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LUIZA

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Você sabe qual foi o Gol mais indecente da história? Veja em 10 lances rápidos

Publicado por Luiz Flávio Gomes -
O gol mais indecente da história do futebol não foi o segundo, do Uruguai, contra o Brasil (2×1), em 1950, em pleno Maracanã. Não foi nenhum dos sete gols com os quais a Alemanha ensacou o Brasil na Copa do Mundo de 2014. Não foi o gol de Maradona com a mão (la mano de Diós) nem as dezenas de gols “roubados” semanalmente pelo mundo afora. O gol mais indecoroso e ignominioso da história do futebol foi marcado no dia 21/11/73, no Estádio Nacional de Santiago (Chile), por Francisco Chamaco Valdés. Vamos aos 10 lances (rapidamente)[1]:

1. Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) esquentou a Guerra Fria (EUA versusURSS, capitalismo versus comunismo). Nas décadas de 60-80 os EUA incentivaram, na periférica América Latina, golpes civis-militares para
impedir a prosperidade do comunismo. Venceram e chegaram a derrubar o Muro de Berlim (1989).

2. Em 31/3/64 acontece o golpe civil-militar no Brasil. A mesma coisa veio a ocorrer no dia 11/9/73, no Chile, com o general Pinochet na liderança. Que elegeu a participação do Chile na Copa do Mundo de 1974 (na Alemanha) como prioridade (o povo, inclusive quando assustado e inseguro, não vive sem pão e circo).

3. O Chile, no entanto, não se classificou nas eliminatórias. A URSS tampouco. A FIFA deliberou fazer uma repescagem entre eles (para admitir o 16º país na Copa – que contava na época apenas com 16 equipes). Marcou dois jogos (ida e volta). No dia 26/9/73, 15 dias depois do golpe civil-militar, o Chile conseguiu um empate de 0x0 no Estádio Lenin, em Moscou.

4. Descontente com os rumos fascistas-direitistas da política chilena (fascismo, com cor esquerdista, que foi praticado também por Lenin na terra dos czares), a URSS comunica oficialmente à FIFA que não vai jogar a segunda partida, marcada para 21/11/73, no Estádio Nacional de Santiago, que foi transformado em prisão (e onde milhares de pessoas foram detidas, torturadas, massacradas e cruelmente exterminadas).

5. Francisco Fluxá (presidente de Federação Chilena de Futebol), ainda sem a confirmação da partida pela FIFA, sugeriu que o jogo fosse realizado em Viña del Mar. O tiranete Pinochet não concordou (seu plano era fingir estabilidade e normalidade, sobretudo na capital Santiago).

6. A FIFA mandou uma comissão analisar as condições do País e do Estádio. A Comissão, integrada inclusive pelo brasileiro Abílio D’Almeida, deu o aval para a partida, depois de constatarem que no Estádio não havia mais presos políticos nem sangue nem sinais de tortura.

7. A FIFA, no dia 17/1173, oficialmente comunicou a retirada da URSS da disputa. Para Pinochet a não realização da partida geraria grande prejuízo para o seu prestígio. A Federação chilena manteve o jogo. Pura ficção. A mídia nada pode falar. É preciso manter o povo na ignorância e na mediocridade (seja em tempos de ditadura, seja em tempos de democracia).

8. No dia 20/11/73 (véspera da partida), os jogadores chilenos estão concentrados. Já sabem que o jogo não vai acontecer. Que tudo que estava sendo anunciado (jogo decisivo contra a URSS!) não passava de algo fantasmagórico. Era pura peça de ficção. Mais um Teatro do Absurdo foi instalado. O povo, no entanto, acreditava no ditador. Pinochet insistia na pataquada (palhaçada, presepada).

9. Na hora anunciada pelo regime militar o Estádio foi aberto. O povo se aconchegou. O time chileno foi compelido a entrar em campo. Um árbitro local foi escalado. Todos “livremente” protagonizaram o mais indecoroso espetáculo do futebol. O árbitro apitou e a equipe chilena avançou contra o gol do “adversário fantasma”.

10. Logo no primeiro minuto do “jogo que nunca existiu”, Francisco Chamaco Valdés cumpriu a despudorada e ridícula tarefa de marcar o gol mais indecente da história, sem nenhum goleiro como obstáculo. Resultado: 1 a 0 para o Chile. Para agradar ainda mais o povo presente, o Santos FC (já contratado previamente, claro) entrou em campo e mandou 5 a 0 no time chileno totalmente despersonalizado e psicologicamente desmoronado.

Uma placa, para registrar o teatro do absurdo de que os humanos são capazes, foi colocada no Estádio, depois da redemocratização. Ela diz: “O povo sem memória é um povo sem futuro”.

[1] Cf. RELAÑO, Alfredo. Gol fantasmal em um escenario de dolor, em EL PAÍS 6/7/15, p. 6.

Luiz Flávio Gomes
Professor

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