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LUIZA

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Glamourização da bandidagem



Dia 18 de novembro de 2016. Pouco mais do meio dia. Um indivíduo munido de uma faca, rouba dois celulares dentro de um coletivo, no bairro Piatã em Salvador. Preso em flagrante foi levado ao Gerc (Grupo Especial de Repressão à Roubos em Coletivos) e dois dias depois foi liberado. Seria mais um assalto entre milhares que acontece todos os dias nas cidades brasileiras, porém, o assaltante Italo Gonçalves de 19 anos foi alçado de meliante suspeito a grande revelação do Carnaval.
Isso porque o jovem não era um assaltante qualquer. Ele era artista. Quando ainda estava no porta-malas da viatura cantou sua composição para a equipe do programa policial "Balanço Geral", da TV Record, que registrava sua chegada no Gerc. A música bombou na internet, foi reproduzida por alguns famosos e se tornou o próximo hit de carnaval.

Agora vamos a um pedaço da melodia da Música “Me libera Nega”:


“Me libera nega, deixa eu te amar / Me libera nega, novinha vou te sentir / Me libera nega, vem pro Olodum / Eu vou te dar um beijo, depois vou te dar mais um”.

Uma linguagem popular, embalada por um ritmo que lembra funk/pop, nada de especial. Menos para o maestro e professor de música popular na Universidade Federal da Bahia- UFBA, Alfredo Soares, que em entrevista a TV Folha, afirmou que a música tem várias qualidades, é considerada clássica, ou melhor, música erudita de qualidade, tem uma “silabagem” (vem do grego, romano? Neologismo?) que pode ser transformada metricamente e finalizou com chave de ouro: Esse cara pode fazer qualquer música.

Como diria Chico Picadinho, vamos por partes. Um professor de Universidade federal achar que o hit, mistura de funk/pop, produzida no camburão, após um assalto é música erudita de qualidade é um descalabro muito grande.

Pra nao falar besteira porque não tenho conhecimento musical, resolvi pesquisar o que seria música erudita, e cheguei aos seguintes significados:


Na música clássica/erudita raramente aparece alguém que cante (um tenor em uma ópera) ou toque sem conhecer as notações musicais, a partitura, porque esta exige erudição lingüística, daí o nome erudita. É uma música que pede que os seus intérpretes tenham estudo aprofundado da prática musical em escolas e conservatórios…

Segundo o compositor Gilberto Mendes.


“... Muitos dicionários de música, define a música erudita como sendo música "séria" em oposição à música popular, música folclórica, música ligeira ou de jazz. Essa definição talvez não seja a melhor a se fazer, se considerarmos que a música para ser séria não precisa, necessariamente, ser música erudita. A segunda definição, que serve apenas para a música clássica, afirma que essa música seria qualquer música em que a atração estética resida principalmente na clareza, no equilíbrio, na austeridade e na objetividade da estrutura formal, em lugar da subjetividade, do emocionalismo exagerado ou da falta de limites de linguagem musical…” (Almanaque Uol)

Ora, pela definições acima, a música “Me libera nega” não possui nenhuma similaridade com música clássica/erudita. Chega até ser uma heresia querer comparar as brilhantes criações de Bethoven, Mozart a esse “hit”.

Essa relação feita pelo professor revela três problemáticas gravíssimas: A ausência de conhecimento ou distorção de conhecimento produzidos pelos professores de universidades, baixo nível cultural da população e a glamourização da bandidagem.

Um professor de música falar que essa hit é música erudita de qualidade é desvalorizar a cultura clássica/erudita construída por profissionais como os Maestros Carlos Gomes e Henrique Oswald. Transforma o conhecimento musical brasileiro ou o pseudo conhecimento musical como alvo de chacota perante outras culturas e países e valoriza músicas com letras vulgares, de conteúdo pobre como símbolos de mais alta erudição.

Isso me deixa com um enorme vazio e desgosto diante desse lixo cultural. Me deixa mais triste ainda, quando compositores como Caetano Veloso canta esse hit na Concha Acústica, valorizando esse tipo de produção. E entro em depressão, quando um assaltante a mão armada rouba cidadãos de bem, cria um hit qualquer, dá entrevistas na televisão se vangloriando de seu ato criminoso, e as pessoas acham isso algo natural.

Esses são os nossos atuais compositores? Esses são os valores de nossa sociedade? Esse é a música erudita de qualidade brasileira?

Não é de se espantar que o sonho dos músicos brasileiros é estudar em escolas no exterior, principalmente nos Estados Unidos e Europa, porque a música boa, com técnica, com harmonização de instrumentos é valorizada e respeitada.

Ademais, a música não só é uma forma de lazer, tem caráter educativo, terapêutico, além de ser uma forma de expressão cultural. Como podemos exigir de nossos filhos, de nossos familiares um conduta correta, um conhecimento cultural sadio se reproduzimos esses hits, vírus musicais? Impossível. Fica a reflexão.

Para finalizar, aproveitando a onda de hits eruditos de qualidade fundo do poço, parafraseio a melodia do momento:

"vou roubar um celular e depois vou roubar mais um/Mais um, mais um”.

Rozany Belvedere

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